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Entendendo as enchentes em Porto Alegre | Parte 1

Escrito por Anthony Ling e Roberta Inglês

Contexto geográfico e histórico

A cidade de Porto Alegre possui uma geografia complexa, com topografia de morros que ultrapassam 300m de altura e áreas planas, sendo boa parte destas junto à água e abaixo da cota de 3m acima do nível do mar, considerada a “cota de inundação” da maior parte da cidade.

Cinco rios do interior do estado deságuam no Lago Guaíba (popularmente ainda chamado de Rio Guaíba, até hoje uma polêmica de nomenclatura), que contorna boa parte da cidade e é o escoadouro das águas de uma região que abrange 30% de toda área geográfica do Estado.

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A água que passa pelo Guaíba segue para a Lagoa dos Patos, único caminho para chegar no mar. Porém, esse escoamento é difícil, pois a abertura para o mar é estreita em comparação com o volume da Lagoa, fazendo com que o caminho da água seja como um “funil”.

 

Mapa do Guaíba. Imagem: Google Earth, com edições próprias

 

Além disso, a partir do final do século 19, a cidade de Porto Alegre avançou sobre o Guaíba com a construção de aterros, em sua maior parte com cotas de nível também suscetíveis a alagamentos. Agravando esse aspecto, há também o aumento da urbanização, não apenas em Porto Alegre mas nas regiões às margens de rios que deságuam no Guaíba, o que tende a aumentar a impermeabilização do solo, reduzir a capacidade de absorção de água e aumentar a velocidade de escoamento da água de regiões mais elevadas em direção aos rios e lagos.

Leia mais: O que podemos aprender com a evolução urbana de Porto Alegre

Foi a partir dessas condições geográficas que, em 1941, após o estado ser castigado por temporais, houve a segunda maior enchente registrada na história de Porto Alegre, ficando atrás apenas desta enchente atual, de 2024. Na ocasião, o nível do Guaíba chegou a 4,75m, 1,75m acima da cota de inundação, e 70 mil pessoas ficaram desabrigadas.

 

Enchente de 1941 em Porto Alegre. Foto: Domínio Público

 

Após esse evento foi construído, na década de 1970, um sistema de proteção contra enchentes para as regiões urbanizadas ou com previsão de urbanização. Entre alternativas apresentadas à época, o sistema foi escolhido pela relação entre custo de implantação, efetividade e relativa simplicidade na sua operação. O sistema consistia em diferentes elementos integrados, incluindo diques, comportas, casas de bombas e a “cortina de proteção”, que dá continuidade aos diques e hoje conhecemos como “Muro da Mauá”.

Projeto esquemático do sistema de proteção de enchentes de Porto Alegre. Fonte: “Prevenir é o melhor remédio”

 

 

O muro passa pela região onde o Guaíba tem o seu maior estreitamento e que também tem a maior densidade de ocupação urbana, o Centro de Porto Alegre. Acima do muro, ainda, havia sido prevista a construção de uma avenida elevada a fim de “preservar as visuais” do Rio Guaíba para quem passa de carro pela entrada da cidade, ideia que nunca saiu do papel e que reflete o pensamento centrado no automóvel dos anos 1970. De qualquer forma, o muro virou um separador físico, isolando a cidade do Guaíba, acelerando a fuga de moradores e negócios do Centro da cidade e se tornando alvo de polêmicas até os dias de hoje.

 

Muro da Mauá em novembro de 2023, quando o Guaíba atingiu altura de 3,46m, segundo maior evento desde a construção do sistema de proteção de enchentes. Foto: Anthony Ling

 

Esse sistema de proteção contra inundações foi planejado de forma integrada com o sistema de drenagem urbana da cidade e foi financiado por um convênio entre o Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOS), que arcou com metade do custo da obra, e o Governo do Estado e o município de Porto Alegre.

Nos cinquenta anos desde a construção desse sistema, ele nunca havia sido estressado. O fato, a princípio, não surpreende, pois especialistas do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS (IPH) haviam modelado o risco de uma enchente como a de 1941 se repetir em uma ocorrência a cada 1500 anos. No entanto, estas modelagens são muito sensíveis a novas ocorrências, que tendem a aumentar com mudanças climáticas. Ainda, recentemente, episódios de menor escala tinham levado ao acionamento dos procedimentos, como mencionado por Darcy Nunes, diretor-adjunto do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), em entrevista: “Nós tivemos, nos últimos oito meses, três eventos de superação e testagem do sistema pela primeira vez”. Em 2023, as regiões do Vale do Taquari e Eldorado do Sul sofreram com fortes enchentes, com a água também subindo em Porto Alegre e chegando a vazar água por uma das comportas, mas não a ponto de comprometer a capital.

O que aconteceu agora?

A partir de abril de 2024, fortes chuvas foram registradas no interior do Rio Grande do Sul, agravadas pelo fenômeno El Niño, com volumes muito acima dos esperados. Também por causa das tempestades, o próprio nível do Oceano Atlântico, para onde as águas escoam, estava acima do normal, devido às chamadas “marés de tempestade”.

No dia 29 de abril, a Prefeitura de Porto Alegre já divulgava em suas redes o acúmulo de água devido às chuvas, alertando quem habita em “áreas de riscos hidrológicos”, embora sem especificar quais áreas. Dia 1 de maio, noticiários já reportavam enchente histórica no Vale do Taquari, com alerta da Defesa Civil para os moradores deixarem áreas de risco, e um alerta em Porto Alegre foi emitido para moradores da região das ilhas, na área de Porto Alegre à oeste do Guaíba, que não apenas não é contemplada no sistema de contenção, como tem cota de inundação mais baixa (cerca de 2m). No entanto, nenhum sinal de alerta foi emitido para a cidade como um todo. Naquele momento, a água já estava descendo rapidamente dos rios em direção ao Guaíba.

No dia 2 de maio, moradores da região das ilhas já estavam desabrigados, e o IPH divulgou previsão para o aumento do nível do Guaíba em níveis históricos, ultrapassando 5m. A Prefeitura emitiu um alerta apenas para moradores do Centro e do IV Distrito, falando em níveis “superiores a 4 metros”. No entanto, com exceção dos moradores das ilhas, foi um dia normal em Porto Alegre, com o Centro Histórico funcionando normalmente.

Somente no dia seguinte, 3 de maio, quando a água do Guaíba vazou por uma das comportas do Muro da Mauá e, além disso, se excedeu a capacidade da casa de bombas da Av. Mauá, invadindo o Centro da cidade, iniciou-se um processo de evacuação do Centro Histórico. Foram poucas horas para alguns moradores planejarem a saída das suas residências e comerciantes tentarem colocar seus produtos em locais mais altos em suas lojas antes da água chegar nos seus endereços.

 

Centro de Porto Alegre em 13/05/2024. Foto: Maí Yandara/Midia NINJA/Flickr

 

Outros pontos da cidade foram pegos totalmente de surpresa. Logo em seguida, a Comporta 14, da Av. Sertório, se rompeu com a força da água, que invadiu rapidamente a zona norte da cidade. No Sarandi, a água extravasou a altura do dique. Em vários pontos da cidade, água também começou a extravasar pelo esgoto pluvial, vertendo através de bueiros. Nas horas seguintes, a cidade viu o colapso total do sistema de contenção de enchentes, com o nível da água atingindo a simulação mais pessimista na capital gaúcha. No final do dia, foi anunciado o fechamento do aeroporto Salgado Filho por tempo indeterminado.

No dia 4 de maio, o Guaíba seguiu subindo rapidamente, ultrapassando a cota de 5m acima do nível do mar e instalando caos na cidade, com o poder público junto à sociedade civil organizando botes de resgate e montando abrigos para aqueles que foram atingidos pela água. O sistema de contenção serviu, no contexto da região central da cidade, como um retardador da enchente em algumas horas, visto que nesse dia a água já atingia cerca de 1,3m acima do nível da rua no Centro Histórico.

O nível da água na parte interna, ou seja, protegida pelo sistema de contenção, foi gradualmente se nivelando com o Guaíba, que chegou a atingir o recorde de 5,35m no dia 5 de maio (altura disputada posterior à postagem deste artigo). A água tomou conta da cidade e invadiu, inclusive, as casas de bombas que ajudam na eliminação da água, inviabilizando, no ápice da crise, 19 das 23 estações de bombas da cidade. As bombas não haviam sido instaladas acima da cota de inundação, na perspectiva otimista de que o sistema garantiria que a água não entrasse na cidade. Mediante o colapso do sistema, 4 das 6 estações de tratamento de água também foram inundadas e tiveram que ser desligadas, levando a 70% da cidade sem abastecimento de água potável. Esse colapso se deu em meio a um rápido aumento do número de pessoas em abrigos emergenciais, gerando uma corrida por água engarrafada em supermercados e atacados e uma escassez de água na cidade. Dia 5 de maio, o prefeito Sebastião Melo pediu para que, quem pudesse, deixasse a cidade a fim de reduzir o consumo de água e a circulação na cidade.

Nos dias seguintes, a região metropolitana da capital gaúcha se viu em um estado de guerra, com centenas de lanchas, botes, jet skis e caiaques, em sua maioria pilotados por civis, realizando resgates e transportando insumos e equipamentos pelas ruas, agora tomadas por água. Ações voluntárias coordenadas emergencialmente entre Prefeitura, instituições privadas e sociedade civil emergiram para atender as centenas de abrigos que se formavam, e equipes viravam a noite para tentar religar as bombas que haviam sido inundadas.

 

Abrigo da Prefeitura montado diante da enchente que atinge Porto Alegre. Foto: Julio Ferreira/ PMPA

 

Até o dia 21 de maio, haviam 581.633 desalojados e 71.503 pessoas em abrigos em todo o Rio Grande do Sul, segundo a Defesa Civil estadual, e a cheia atingiu mais da metade dos bairros de Porto Alegre. É possível acompanhar a mancha das áreas de inundação em mapas e na plataforma criada pela prefeitura. Foram muitos os motivos que levaram aos moradores não saírem das suas casas em meio às enchentes, desde a falta de aviso, à crença que a água não chegaria em suas casas, até condições particulares como idade ou limitações físicas, bichos de estimação que ficariam nas casas, medo de saques em meio ao caos instalado e, por fim, o próprio medo de ir para um abrigo.

É importante ressaltar que, segundo dados do IBGE de 2010, 6,2% da população da região metropolitana de Porto Alegre vive em favelas, estando mais suscetíveis a eventos climáticos extremos por já terem condições habitacionais e urbanas com risco ambiental elevado. Muitas das áreas afetadas pelas enchentes estão em bairros residenciais horizontais de baixa renda. São domicílios que não tiveram como proteger os seus bens em meio a uma situação catastrófica sem alerta prévio, tampouco tinham recursos para se abrigarem em outra localidade no caso da falta da sua residência.

Leia mais: Moradia digna e direito à cidade antes e depois de desastres naturais

O que falhou no sistema?

Em meio à crise instalada, iniciou-se uma busca para tentar entender o que exatamente falhou, principalmente em relação ao sistema de contenção da cidade. Carlos Todeschini, ex-diretor do extinto DEP (Departamento de Esgotos Pluviais) e do Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae), afirmou que “o sistema de proteção falhou porque não teve manutenção”. Veículos apontam que, nos últimos anos, houve uma queda nos valores investidos e no quadro de funcionários do Dmae, resultando na precarização da manutenção do sistema, e acarretando na tragédia, cujas proporções poderiam ter sido bem menores.

Já Darcy Nunes, atual diretor-adjunto do Dmae, defende que nas três ocasiões recentes de superação com o sistema de contenção, os portões do sistema de diques já apresentaram falhas que, segundo o diretor, refletem um problema estrutural de concepção, e não de manutenção. O Ministério Público deve iniciar uma investigação do sistema de proteção de enchentes da capital.

Muitos apontam que o Muro da Mauá teve um papel fundamental na proteção da cidade, e que sem ele “Porto Alegre ficaria debaixo da água”. Porém, vale ressaltar que não apenas o muro é parte de um sistema de proteção contra cheias, no qual elementos como comportas e bombas falharam neste episódio, como apenas parte da cidade está na cota de inundação.

O caso, no mínimo, serve para refletirmos sobre o sistema atual, que não teve uma atualização relevante na sua concepção em 50 anos em um cenário em que cientistas alertam para o agravamento desse tipo de fenômeno. Ou seja, o aprendizado com esse trágico episódio deveria ser avaliar detalhes técnicos em relação ao sistema atual, como elevar as casas de bombas para saírem da cota de inundação, ou a manutenção de borrachas vedantes das comportas do sistema de Porto Alegre, e também reforçar o sistema como um todo, em múltiplas escalas. Vale lembrar que os municípios vizinhos Canoas e São Leopoldo, e não só Porto Alegre, possuem os seus próprios sistemas de proteção contra enchentes, que também falharam por outros motivos. Ambos sofreram consequências severas das inundações.

No próximo artigo, faremos uma reflexão sobre as medidas para mitigar problemas futuros, assim como os riscos e oportunidades das medidas a serem tomadas no processo de reconstrução da cidade e do estado do Rio Grande do Sul.

Via Caos Planejado

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